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Conto - A história de Júlia - Parte 1

Todos os dias a mesma rotina, acordar, banho, escolher a roupa(geralmente uma variação do dia anterior), café da manhã, mochila nas costas e estudos.

Dias atrás, ela fez duas entrevistas para estágio em moda, uma em uma confecção de uniformes para empresas e outro em uma nova marca de roupas femininas adulto. Achou interessantíssima as duas propostas, ainda mais pela primeira que pagava bem, ainda mais por ser um estágio. Esperou por dias e nada de respostas.

Júlia sempre teve mudanças em seus padrões de vestes. Quando criança, já foi princesa como muitas outras meninas, em sua adolescência já foi gótica que calçava o mesmo coturno todos os dias combinando com saiotes, calças, shorts e sobretudo. Próximo a vida adulta, deixou tudo para trás e começou a usar roupas mais leves, sempre com seus All-Stars vermelhos nos pés. Visual este, que sustenta até hoje, com algumas mudanças, mas basicamente o mesmo.

Hoje, no segundo semestre da faculdade de moda, Júlia já não tem mais contato com muitos amigos dos tempos de ensino médio, fez alguns novos, mas a que sempre está ao seu lado é Rafaela, uma garota loira, "patricinha" de vinte anos, que desistiu do curso de ciências sociais para se dedicar à moda. Rafaela é muito diferente de Júlia, sempre ligada à tendencias, adora shoppings, cafés no Starbucks e Iphones do modelo atual na cor branca. Júlia sempre gostou da simplicidade da vida, café no coador de pano, pão de queijo, bilhetinhos em papel amassado e músicas antigas. Nunca ligou muito para a aparência, mesmo em sua época de princesa, onde inventava que era a "princesa donzela guerreira" do reino do fogo.

Era sábado, Júlia havia planejado ficar em casa e jogar video game o dia todo, pois segundo ela, quem faz apresentação de projeto de faculdade na sexta a noite, tem direito a diversão desenfreada no sábado posterior. Porém não contava com uma mensagem de Rafaela:
- "Amiga, preciso ir no shopping trocar umas coisas, topa? Passo aí em 15min."
Júlia pensou em diversas desculpas para não ir, mas em consideração a amizade de Rafaela, respondeu:
- "Vamo ae, já almoçou?"

Chegando ao shopping, Rafaela retirou do porta-malas duas sacolas e partiram. Na primeira parada, entraram em uma loja de roupas e fizeram a primeira troca. Logo em seguida partiram para uma loja de calçados, Rafaela foi abordada por uma das atendentes e informou sua necessidade:
- Oi, ganhei este sapato de presente só que minha tia comprou um número menor, preciso de um trinta e sete.
A atendente responde:
-  Ah moça, a senhora me desculpe, mas este modelo fazia parte da promoção de troca de coleção, estes não tem troca." Como Rafaela conhecia muito bem este tipo de sistema, não quis discutir e compreendeu sem criar caso. Olhou para Júlia e disse: - "Fazer o que? Bora almoçar?".

Após alguns minutos tentando escolher o restaurante, decidiram que o mexicano seria o da vez. Após se sentarem um papo frenético sobre a vida se deu início, namoros, faculdade, família, filmes, baladas, etc. Logo o assunto do sapato retornou:
- Ai July, eu adorei o sapato, é uma pena apertar tanto no meu pé. Quanto você calça?
- Trinta e cinco" - respondeu.
- Será que não dá certo no seu pé? A forma é meio pequena.
- Não sei, pode ser que caiba.
- Dá uma olhada. - Rafaela então retira da caixa um par de scarpin preto verniz com salto agulha onze e uma fivela para prender no tornozelo.
- Nossa, Rafa. É muito alto, eu quase não uso salto e os que eu uso são baixos e mais grossos.
- Tenta amiga, só pra ver se cabe, não é pra sair andando.
Então Júlia tira seu par de tênis velho e calça os scarpins.
- E aí? Eu sei que não são confortáveis, mas acho uma boa para você que tem ido fazer entrevistas.
- É, ficou bonito, mas não sei se saio do lugar com eles.
As duas riram.
- Vou tentar, quanto você quer por eles?
- Nada, eu ganhei, não tenho paciência pra tentar vender minhas coisas. Pelo menos com você, ele vai ser útil.

Chegando os pratos, Júlia esquece do mundo a sua volta e ataca vorazmente sua refeição, pois já eram 14:30 e não havia tomado café da manhã.
No meio do almoço, Rafaela olha para o lado esquerdo e repara em um rapaz de cabelos escuros que não para de olhar em direção à elas:
- July, não olha, tem um carinha do seu lado direito que ta olhando pra cá, mas não sei pra quem.
- Fala pra ele que ele pode ficar olhando a vontade, desde que pague a conta.
Rafaela riu e então sem querer derrubou a sacola da loja de calçados, a caixa se abriu e a tampa voou em direção ao rapaz. Sem reação, as duas garotas paralisaram, prontamente o rapaz estendeu o braço e alcançou a tampa e entregou diretamente para Júlia:
- Oi! É seu né?
- O-obrigada.
- Meu nome é Douglas, eu estudo na mesma faculdade que você.
- Sério? Mas você tá em moda também?
- Não, tô fazendo arquitetura. Quinto semestre.
- Ah sim! Mas a gente quase não vê o pessoal de arquitetura, vocês estudam no campus do outro lado da rua né?
- Sim, é que minha irmã trabalha na secretaria do campus de moda e eu pego carona com ela todo dia, aí eu fico esperando ela uns dez minutos antes de ir embora e já ví você por lá.
- Ah entendi, tá sentado sozinho?
- Por enquanto sim, tô esperando um brother e a namorada dele.
- Certo, obrigada pela tampa! rs!
- De nada, bonito seus sapatos!
Júlia olha para seus pés e percebe que não tinha se dado conta que ainda estava usando os scarpins.
- Nossa! Esqueci deles, obrigada por lembrar!
- Como assim?
- Longa história.
- Ahm, ok. Acho que vou nessa, qual seu nome?
- Júlia, prazer.
- Até mais Júlia!
- Até!

Douglas retorna a sua mesa.

Rafaela, arrumando a bagunça da sacola fala sussurrando:
- July, ele nem percebeu que eu tô aqui, acho que você acaba de conquistar o menino!
- Para de ser besta, ele nem pediu meu telefone.
- Ah querida, relaxa que ele vai te achar.

Ao saírem do restaurante, Júlia se despede de Douglas apenas acenando, Douglas retribui com o mesmo gesto e sorri,

Chegando em casa, Júlia entra e joga a sacola de sapatos na cama e deita ao lado da mesma.
Olha, suspira e tira tênis e meia, calça os sapatos e inicia seu treinamento.
Com alguns minutos, já consegue dominar o andar, não está perfeito, mas já pode considerar em sair e não fazer feio. Como todo estudante de moda pensaria, pensa no que combinar com este scarpin, faz alguns testes e nada. Entre uma transição de look e outro, seu celular vibra. Uma notificação do Facebook aparece dizendo: "Douglas adicionou você".

Sem explicação, seu coração dispara, suas pernas amolecem, sua respiração fica pesada e as mão suadas. Não entende o que estava acontecendo e então se deita para se acalmar. Ao aceitar a solicitação, logo chega uma mensagem:
- Oi Júlia! É o Douglas da faculdade e do mexicano.
- Oi Douglas!
- Tá tudo bem?
- Sim e com vc?
- Tbm
- Qual vai ser a de hoje? Balada?
- Rs. Não hoje eu pensei em acabar com o catálogo da Netflix.
- Sério? Tá assistindo o que?
- Tô assistindo Stranger Things, de novo!
- Sério? Adoro Stranger Things!

O papo vai seguindo.

- Tá afim de dar uma volta?
- Hummm onde?
- Shopping? Rs! Brincadeira, tem um bar que a banda do meu amigo vai tocar, fica ali perto da faculdade.
- Ah eu sei qual é!
- Vamos?
- Pode ser! Que horas?
- Daqui uma hora?
- Fechado, te encontro lá!
- Ok!

Júlia começa a se arrumar, como se estivesse esperando a vida toda por isso. Pronta para sair, pede o carro de seus pais emprestado e vai direto ao bar. No meio do caminho, recebe uma mensagem de Douglas dizendo que já chegou e que esperaria na porta. Ao chegar, cumprimenta-o com um beijo no rosto e entram. A noite segue tranquila e divertida, perfeita, para fechar, Douglas leva Julia até o estacionamento e ao se olharem por alguns segundos, um beijo acontece. Até hoje não sabem quem teve a iniciativa, talvez a sincronia de seus pensamentos fizeram com que os dois avancem.
Um beijo que disse a ela que muita coisa aconteceria, boas e ruins, muitas aventuras, muitas experiências virão, ela sente medo, ansiedade, felicidade e curiosidade. Um beijo que traz mais dúvidas que certezas, e isso a deixa excitada.


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